Ouse, crie sua Vida - não sobreviva...
Assisti hoje “Um Homem Sério - Uma pessoa capaz de tudo para sobreviver” e vim trazer a reflexão do filme para a vida.
Quem nunca passou por uma situação conflitante sem compreendê-la e nem saber como agir? Como canta Jefferson Airplane em "Somebody to Love" música tema do filme, "quando a verdade se revela mentira, toda alegria interior se vai".
Um professor universitário de física nos mostra através de fatos tristes e trágicos de sua vida, que ninguém tem as respostas para os dilemas pessoais a não ser você.
Dois postulados físicos são usados para embasar o filme buscando encontrar sentido para as dúvidas existenciais/filosóficas/religiosas do protagonista.
Foi citado o “Paradoxo do gato”, proposto por Schrodinger, segundo o qual se você observar o todo de uma situação terá apenas uma estado - gato vivo ou morto, mas para quem analisa quanticamente verá um momento de transição em que se encontram partes vivas e mortas ao mesmo tempo.
Este segundo estado é o que nos caracteriza. Desde que nascemos quem nos vê apenas diz que estamos vivos, mas metabolicamente morremos a cada dia.
É possível detectar isso na vida do protagonista que não percebia os detalhes de sua realidade, somente o todo. Ele não sabia o que se passava em sua vida. Não tinha noção das sutilezas. Não percebia as

mudanças que ocorriam e nem participava delas. Estava fora da caixa olhando o experimento.
Quantos de nós passamos por isso? E por falta de sensibilidade em não olharmos a dualidade de cada experiência. Até que algo acontece e nos tira do lugar, nos assusta, faz nos conhecer a realidade das coisas...
A vida é feita de momentos que se transformarão em fatos. É micro e macro ao mesmo tempo. Mas acontece aos poucos, no dia - a - dia, na construção individual. Se for observada de fora, está nos fatos e, de dentro, nos momentos ambos sendo compartilhados no Universo.
Isso fica evidente numa frase do protagonista a um aluno: “Nem eu entendo o paradoxo do gato, são parábolas para vocês entenderem a matéria. Só dá para entender as coisas com a matemática”. Realmente ele não compreendia. Via as coisas somente de fora. Mas o caminho é dentro!
Diante de tantas catástrofes e acontecimentos inesperados, ele diz em uma de suas aulas: “Nunca temos certeza de nada” enquanto explica o Princípio da Incerteza de Heisenberg. Somos dinâmicos enquanto partícula e todo. O Universo está constantemente mudando e não há como prever tudo: posição, massa e velocidade, sem interferir no processo a fim de descobrir esses valores. Ou seja, nunca saberemos tudo que acontece numa situação por ela ter

várias facetas.
Criamos em conjunto com o Universo e em interação com as outras criaturas, mas não temos como controlar todas as partículas e movimentos e pessoas e ações e acidentes e incidentes. Tudo na vida parte do autoconhecimento e da criação mental do individual para o todo. E depende também da posição: dentro ou fora da caixa(situação).
Como base para o roteiro, os irmãos Coen usam o drama de uma família típica de classe média americana, aqui estamos falando da década de 70 em que a rotina dessa família é o centro da história. É Uma comédia de humor negro ambientada em 1967, dentro de uma família judia, e centrada na vida de Larry Gopnik, um professor que leciona física na Universidade Midwestern, e vê sua vida desmoronar quando sua esposa Judith anuncia que quer o divórcio e que está apaixonada por um de seus amigos, Sy Ableman. (Ableman= homem hábil, respeitado, bem sucedido em oposição ao protagonista).
Lawrence ambiciona principalmente ser considerado um “homem sério” por seus pares, o que torna seu “rival” ainda mais irritante em função de sua postura de superioridade, sua enunciação impecável e cuidadosa e, claro, seu status diante da comunidade.
Larry Gopnik (Michael Sthulbarg), que vive uma vida perfeitamente linear, com mulher e filhos, vê sua trajetória mudar devido a uma série de acontecimentos estranhos. Sua vida desmorona, com requintes de crueldade Além do trabalho, tem problemas também em casa. E seu casamento acaba numa conversa tão bizarra quanto cruel, deixando o homem em crise de fé e identidade.
É um retrato fabuloso de um sujeito que, criado para ter a Fé como norte, finalmente passa a questionar os desígnios divinos diante de tantas adversidades.
Portanto, o roteiro nos apresenta o ansioso Lawrence que, prestes a conseguir uma sonhada estabilidade na faculdade em que leciona, vê seu mundo desabar em função de uma série de pequenos e grandes desastres: sua esposa pretende se divorciar para se casar com outro homem; seus superiores vêm recebendo cartas anônimas ao seu respeito e que podem ameaçar seu emprego; um aluno ameaça denunciá-lo por extorsão; seu irmão mais velho parece decidido a morar para sempre na sala de sua casa; seu vizinho insiste em roubar parte de seu terreno; e um certo “clube do disco” passa a cobrar várias e caras mensalidades por um serviço que ele não assinou.
Assim, mesmo enquanto ensina o paradoxo de Schrödinger, o professor mergulha em questões puramente metafísicas, como a natureza de Deus (ou HaShem) e os obstáculos que este coloca no caminho daqueles que quer testar – e, neste caso, o judeu se mostra um autêntico Jó.
Ele é o cara que vive bem sua vida hermeticamente perfeita. E aí surgem os pontos de conflito do filme, que são muito bem trabalhados por um roteiro, que nunca perde o fio da me

ada das cenas. As situações na vida de Larry vão acontecendo de forma que ninguém acredita e nem ele próprio, mesmo sendo problemas típicos que podem acontecer com qualquer um, já que vão se acumulando de forma sucessiva e virando uma bola de neve da qual ele não sabe como se desvencilhar.
O filme faz rir pelo ridículo de várias situações, mas não tem uma piada sequer. Impagável, por exemplo, é a busca de Gopnik por orientação religiosa dos rabinos de sua cidade, não identificada, do estado de Minnesota: um deles, por exemplo, jovem, usa um discurso típico de auto-ajuda.
“O que eu fiz para merecer isso?" é a pergunta retórica que todo mundo se faz em períodos de provação. Mas para ele não. Como leciona física, com inclinações matemáticas, na cabeça do professor todo efeito teve antes uma causa. Ele passa todo Um Homem Sério formulando-a para si mesmo, para seu advogado, para os rabinos da comunidade, para os céus. Mas quanto mais questiona mais apanha.
Talvez seja, portanto, o primeiro herói tragicômico dos Coen a buscar solução para seu dilema não com reações, mas refletindo sobre a ação que desencadeou todo o processo - uma reflexão que tem tudo a ver com o momento de crise dos EUA (a bandeira na tempestade no final do filme não poderia ser mais clara). "Tudo é matemática", diz Larry, como se falasse de macroeconomia. Lembrando que o caos também é um conceito matemático. Numa leitura politizada, em sintonia com a referência que os diretores fazem à crise econômica, tradição judaica se mistura com tradição americana. E soa lição de moral.
Ainda que sirvam de piada ao longo do filme, conceitos judaicos absolutamente abstratos como tradição e fé (livros na estante, cerimônias, acúmulos de histórias) terminam enaltecidos. "Por favor aceite o mistério", diz a certa altura o sul-coreano ao judeu matemático.
Ele procura ao longo da história vários conselheiros da religião que não tem respostas consistentes sobre nada. E deixa a mensagem : Ninguém sabe nada. Sejam criativos. Criem e ousem porque seguindo ou não o que é dito correto todos vão para o mesmo caminho, terão o mesmo fim. Mas “Aceite tudo que acontece em sua vida com simplicidade”.
No fim, o filme aponta para a idéia de que não temos certeza de nada e de que tudo muda o tempo todo, com a suposição de uma doença seguida na história, por um tufão - catástrofe na cidade, ou seja, não adianta ser simplesmente um homem sério e seguir a religião como ele judaico, que seguia os mandamentos, fazia. Ninguém sabe o que irá acontecer nos próximos momentos.
Podemos interagir bem com tudo que nos acontece. E seguir o caminho “do bem” mesmo não satisfazendo as expectativas dos outros - aqueles que assumem uma posição de certeza, controle e retidão realmente impossíveis - o tempo todo. Para isso, o ideal é autoconfiança e usar a criatividade em momentos decisivos e nas escolhas

da vida.
Mestres em estabelecer o universo de seus personagens através dos diálogos, os irmãos Coen usam a cultura hebraica nas construções de frases atípicas e, assim, quando ouvimos Judith explicar para o marido que “sem o gett, serei uma aguna”, podemos até não conhecer o significado exato das palavras, mas compreendemos exatamente o que querem dizer e – mais importante – o que representam para a personagem.
Da mesma forma, a insistência de Lawrence em protestar por “não ter feito nada” para merecer tantos problemas é algo que aponta não só para seu sentimento de que tudo ocorre como conseqüência de algo (uma filosofia que ele manifesta abertamente para seu aluno Calvin), como também para sua absoluta passividade diante da vida – algo que o leva ao absurdo de se oferecer para chamar a esposa quando o amante desta o visita e que leva Judith ao ponto de condená-lo por se irritar ao descobrir a traição.
A direção comanda Um Homem Sério com uma precisão invejável: cada plano, cada close, cada inclinação de quadro traz um propósito claro – puro “rigor visual” Ainda assim, é impossível não notar, por exemplo, o cuidado no trabalho com os figurinos (como na cena no restaurante, em que Judith e Sy usam roupas quadriculadas que ressaltam sua cumplicidade e excluem o triste Lawrence e seu terno sem vida) ou a utilização magnífica das músicas incidentais (entre as quais se destaca, claro, “Somebody to Love”, do Jefferson Airplane).
O soberbo design evidencia apuro ao enriquecer aquele universo através de detalhes como o tilintar do gelo num copo, o mergulho ritmado de um saquinho de chá numa xícara ou o ruído crescente do fogo na lareira para ressaltar a tensão, durante a cena de abertura. Como se não bastasse, a escolha do elenco continua a ilustrar a sensibilidade particular dos cineastas, já que cada rosto parece ter sido construído especialmente para o filme.
Vale ressaltar ainda, a bela atuação de Michael como um Larry afundado em seus problemas, com seus óculos característicos e suas contas. Ah, as contas, a física e a matemática, uma metáfora perfeita para o falso controle sobre a própria vida.
Além disso, a direção de arte é excelente, não apenas por conseguir retratar a década de 70, mas por se conectar ao fluxo de acontecimentos do filme. As casas e salas são organizadas de maneira obsessiva, limpas e bem formadas. Só se alteram de acordo com o roteiro, com o que a história clama para ter em cena. A câmera é lenta e deixa ótimas lacunas para o espectador, mas em momento nenhum torna o filme chato.
Divertido, melancólico e angustiante, Um Homem Sério traz o fato de que ninguém

jamais poderá ter certeza sobre a existência ou não de Deus, e nem mesmo acerca de seu próprio destino ou daquilo que acontecerá no segundo seguinte, ainda que se esforce ao máximo para ser o “homem sério” que considera como um modelo a ser seguido.
Embora não perceba, todo homem é, o gato de Schrödinger – dual enquanto ser vivo e social e, - vivendo o Princípio da Incerteza de Heisenberg.
Veja o trailer de "Um homem sério" Assista cenas
Informações Técnicas
Título no Brasil: Um Homem Sério
Título Original: A Serious Man
País de Origem: EUA / Reino Unido / França
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 106 minutos
Ano de Lançamento: 2009
Estréia no Brasil: 19/02/2010
Site Oficial:
Estúdio/Distrib.: Universal Pictures
Direção: Ethan Coen / Joel Coen