segunda-feira, 24 de junho de 2013

ENTREVISTA

MEDICINA - ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE



 
Quem nunca se inspirou nos seriados?
Principalmente os famosos seriados médicos, como Dr. Kildare”, “Scrubs”, “Grey’s Anatomy”, “House” e “ER (Plantão Médico)”.
Pensei, então, em conversar com alguém que cursa Medicina e pode nos falar um pouco sobre a veracidade dos procedimentos mostrados, do comportamento de estudantes e o funcionamento de hospitais, da questão da saúde pública e da formação de rótulos pela mídia.

Conversei com a acadêmica de Medicina do período Internato da FMIT, Faculdade de Medicina de Itajubá, Mayra Lopes de Almeida Reis.
Segue a entrevista:

Como aluna do curso de Medicina como você vê as séries médicas?
Concordo com Humberto Eco quando o mesmo se refere a um “desenho animado de adultos” uma vez que o roteiro segue um padrão; o final é passível de dedução para um bom observador; e serve como um meio comercial objetivando lucro e raramente a cultura, apesar de atingida por vezes.

As séries retratam a realidade dos hospitais?
Não, porque existe uma publicação de artigo indexado italiano, na qual os autores mostram os absurdos procedimentos que são realizados nas séries. Mas, pode-se dizer que elas se aproximam da realidade quando permitem a transparência da vida particular dos personagens. Pois, os profissionais de saúde são pessoas comuns, apesar de o senso comum, por vezes, ignorar tal fato. Profissionais de saúde também ficam doentes, pagam contas, amam e sofrem, mas tudo isso fica “mascarado” ou delegado a segundo plano mediante a necessidade inerente e imediata de atender o próximo.
Mayra Lopes
Como as séries influenciam o comportamento dos alunos?
Permite a idealização do “salvar”, um sonho que todo egresso do curso já teve em algum momento da vida; faz com que muitos se sintam compreendidos, pois vêem angústias particulares expressas pelos personagens; são um bom entretenimento para aqueles que possuem uma rotina rígida com horários não programáveis.

É intrigante ver nos seriados os médicos tratarem com naturalidade e, até mesmo frieza, questões como morte e serem frios quanto aos pacientes terminais. Isso realmente acontece?
Os seriados retratam a falta de preparo que os profissionais de saúde possuem para lidar com a morte e o morrer. Na Faculdade de Medicina de Itajubá existe a disciplina curricular de Cuidados Paliativos que visa oferecer um conforto e condições dignas aos pacientes terminais, evitando o despreparo visto nas telinhas que, de forma lamentável, ainda impera em parte significativa dos hospitais.

A que você atribui o aumento do número de casos de negligência médica nos atos de esquecer instrumentos no organismo do paciente após a cirurgia, receitar e/ou aplicar medicação errada, desligar aparelhos escolhendo quem deve viver, entre outros?
Atribuo não à má formação como a mídia tenta induzir, mas sem querer justificar, à sobrecarga de trabalho, excesso de atividades e, o que considero mais triste, à “mercantilização” da profissão e a necessidade de alta produtividade. Atualmente é raro encontrar um médico com apenas um vínculo empregatício, se é que ainda existe.

O que você tem a dizer sobre a saúde pública no Brasil?
É um belo modelo quando comparado aos internacionais, possui um embasamento legal estruturado com ideais admiráveis como universalismo, equidade, dentre outros. Mas não conseguiu e não conseguirá ser implantado nas próximas décadas como se deve de forma a propiciar efetividade de práticas significativas para a população em geral.

Você é uma pesquisadora dentro da Medicina. Existe campo para pesquisa? Há investimento financeiro nesta área?
Sempre existe campo, pois o mundo é um lugar a ser explorado. A ciência caminha mesmo quando descobrimos que “algo” não funciona, pois nesse ponto encerram-se as pesquisas nessa área.
Os investimentos existem, mas são insuficientes diante da demanda, pois pesquisa é investir muito em algo que pode não dar certo. E, poucas pessoas estão preparadas para tal, sobrando essa carga para órgãos governamentais que nem sempre fornecem todos recursos necessários.

Mayra Lopes
Em seu blog (Holmes e House) você traça um paralelo entre Holmes e House. Seria possível afirmar que tanto na investigação/solução de um crime quanto na de uma doença as características são as mesmas?
O paralelo é possível pois o médico, assim como o detetive, precisa aplicar o mecanismo lógico dedutivo embasado em muito conhecimento para atingir a conclusão correta: “o diagnóstico”.

O médico se sente um investigador que está acima de todos, no controle da vida a ponto de dizer “elementar meu caro...”?
Quanto à vaidade referida, creio que não se embasa no resultado da terapêutica ou no diagnóstico, mas sim em uma reação infantilizada de profissionais que são extremamente cobrados e mascaram o medo da “inferioridade” na máscara da “superioridade”.

O que você tem a dizer a quem se inspira nos seriados médicos para a escolha da carreira profissional?
House é famoso por pressupor que todos mentem o tempo todo, porém um paciente acolhido que sabe que não vai ser julgado tende a dizer a verdade. Somente assim se estabelece uma boa relação médico-paciente que propicia a cura do paciente e a realização do profissional enquanto ser humano. A Medicina é algo que não pode e não deve ser reduzido a status ou questão financeira, limites existem no mundo, na vida e todos encontraremos esses limites. As perguntas que a pessoa que realizará a escolha profissional deve se fazer é: “O que quero fazer todos os dias?” “Qual a intensidade do meu amor ao próximo?”.
Existe uma passagem em que Madre Teresa pergunta por quanto deve-se dar banho em um doente e ela conclui que por dinheiro nenhum, apenas por amor é que somos capazes de cuidar de alguém.