MEDICINA - ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE
Quem nunca se inspirou
nos seriados?
Principalmente os
famosos seriados médicos, como “Dr. Kildare”, “Scrubs”,
“Grey’s Anatomy”, “House” e “ER (Plantão Médico)”.
Pensei, então, em
conversar com alguém que cursa Medicina e pode nos falar um pouco
sobre a veracidade dos procedimentos mostrados, do comportamento de
estudantes e o funcionamento de hospitais, da questão da saúde
pública e da formação de rótulos pela mídia.
Conversei com a
acadêmica de Medicina do período Internato da FMIT,
Faculdade de Medicina de Itajubá, Mayra Lopes de
Almeida Reis.
Segue
a entrevista:
Como
aluna do curso de Medicina como você vê as séries médicas?
Concordo
com Humberto Eco quando o mesmo se refere a um “desenho animado de
adultos” uma vez que o roteiro segue um padrão; o final é
passível de dedução para um bom observador; e serve como um meio
comercial objetivando lucro e raramente a cultura, apesar de atingida
por vezes.
As
séries retratam a realidade dos hospitais?
Não,
porque existe uma publicação de artigo indexado italiano, na qual
os autores mostram os absurdos procedimentos que são realizados nas
séries. Mas, pode-se dizer que elas se aproximam da realidade quando
permitem a transparência da vida particular dos personagens. Pois,
os profissionais de saúde são pessoas comuns, apesar de o senso
comum, por vezes, ignorar tal fato. Profissionais de saúde também
ficam doentes, pagam contas, amam e sofrem, mas tudo isso fica
“mascarado” ou delegado a segundo plano mediante a necessidade
inerente e imediata de atender o próximo.
Como
as séries influenciam o comportamento dos alunos?
Permite
a idealização do “salvar”, um sonho que todo egresso do curso
já teve em algum momento da vida; faz com que muitos se sintam
compreendidos, pois vêem angústias particulares expressas pelos
personagens; são um bom entretenimento para aqueles que possuem uma
rotina rígida com horários não programáveis.
É
intrigante ver nos seriados os médicos tratarem com naturalidade e,
até mesmo frieza, questões como morte e serem frios quanto aos
pacientes terminais. Isso realmente acontece?
Os
seriados retratam a falta de preparo que os profissionais de saúde
possuem para lidar com a morte e o morrer. Na
Faculdade de Medicina de Itajubá
existe a disciplina curricular de Cuidados
Paliativos
que visa oferecer um conforto e condições dignas aos pacientes
terminais, evitando o despreparo visto nas telinhas que, de forma
lamentável, ainda impera em parte significativa dos hospitais.
A
que você atribui o aumento do número de casos de negligência
médica nos atos de esquecer instrumentos no organismo do paciente
após a cirurgia, receitar e/ou aplicar medicação errada, desligar
aparelhos escolhendo quem deve viver, entre outros?
Atribuo
não à má formação como a mídia tenta induzir, mas sem querer
justificar, à sobrecarga de trabalho, excesso de atividades e, o que
considero mais triste, à “mercantilização” da profissão e a
necessidade de alta produtividade. Atualmente é raro encontrar um
médico com apenas um vínculo empregatício, se é que ainda existe.
O
que você tem a dizer sobre a saúde pública no Brasil?
É
um belo modelo quando comparado aos internacionais, possui um
embasamento legal estruturado com ideais admiráveis como
universalismo, equidade, dentre outros. Mas não conseguiu e não
conseguirá ser implantado nas próximas décadas como se deve de
forma a propiciar efetividade de práticas significativas para a
população em geral.
Você
é uma pesquisadora dentro da Medicina. Existe campo para pesquisa?
Há investimento financeiro nesta área?
Sempre
existe campo, pois o mundo é um lugar a ser explorado. A ciência
caminha mesmo quando descobrimos que “algo” não funciona, pois
nesse ponto encerram-se as pesquisas nessa área.
Os investimentos existem, mas são insuficientes diante da
demanda, pois pesquisa é investir muito em algo que pode não dar
certo. E, poucas pessoas estão preparadas para tal, sobrando essa
carga para órgãos governamentais que nem sempre fornecem todos
recursos necessários.
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| Mayra Lopes |
O
paralelo é possível pois o médico, assim como o detetive, precisa
aplicar o mecanismo lógico dedutivo embasado em muito conhecimento
para atingir a conclusão correta: “o diagnóstico”.
O
médico se sente um investigador que está acima de todos, no
controle da vida a ponto de dizer “elementar meu caro...”?
Quanto
à vaidade referida, creio que não se embasa no resultado da
terapêutica ou no diagnóstico, mas sim em uma reação
infantilizada de profissionais que são extremamente cobrados e
mascaram o medo da “inferioridade” na máscara da
“superioridade”.
O
que você tem a dizer a quem se inspira nos seriados médicos para a
escolha da carreira profissional?
House
é famoso por pressupor que todos mentem o tempo todo, porém um
paciente acolhido que sabe que não vai ser julgado tende a dizer a
verdade. Somente assim se estabelece uma boa relação
médico-paciente que propicia a cura do paciente e a realização do
profissional enquanto ser humano. A Medicina é algo que não pode e
não deve ser reduzido a status ou questão financeira, limites
existem no mundo, na vida e todos encontraremos esses limites. As
perguntas que a pessoa que realizará a escolha profissional deve se
fazer é: “O que quero fazer todos os dias?” “Qual a
intensidade do meu amor ao próximo?”.
Existe uma passagem em que Madre Teresa pergunta por quanto
deve-se dar banho em um doente e ela conclui que por dinheiro nenhum,
apenas por amor é que somos capazes de cuidar de alguém.

