Apenas
bons amigos
“A
grandeza está em não se saber grande.”
Visualize
um grupo de jovens universitários da classe média em rodinhas de
violão. Comum né? Agora resgate da memória a cena de amigos na
praia fazendo um luau. Natural para quem mora na praia. No litoral é
perceptível esse hábito dos moradores de lá. Mas tente imaginar
agora estudantes, em turma,
numa festa ou num bar. Até aí nada demais...
Isso
mesmo. Não foi nada demais e por isso foi tudo. Foi espontâneo,
experimental. Aberto ao novo como tudo que é jovial e sem regras. E
nem podia ser diferente. Cada um da turma estudava seu instrumento
sozinho e até davam aula particular para garantir um dinheiro para
as festas de fim de semana. Mas o que eles mais gostavam mesmo era de
se reunir para fazer o som na casa dos amigos.
Ainda
bem que sempre tem aqueles que abrem as portas para receber a turma.
E, foi assim, que Nara Leão se tornou a musa do chamado clube da
Bossa Nova. Ela era moderna e reunia, em seu apartamento, de frente
para o mar, em Copacabana,
aqueles que veio a gravar e a divulgar algum tempo depois.
O
estilo de cantar baixinho tão singular nada mais era que uma
imposição do único horário possível para os ensaios. O grupo se
reunia depois do trabalho, só que depois das 10 da noite a
vizinhança nos arranha – céus cariocas reclamava do barulho dos
festeiros. Não foi algo pensado muito menos planejado. Foi o que deu
para fazer. Mas deu certo, vingou.
Nem por
isso era mau feito. Muito pelo contrário. Cada um dominava seu
instrumento e criava sua marca, no caso, a batida que identificava
cada instrumentista. Quem nunca ouviu a expressão “a batida do
João Gilberto”, que se tornou a marca da Bossa Nova?
Até o
nome Bossa Nova foi uma inspiração antes de uma das reuniões dos
integrantes. Ninguém parou para escolher nem pensou num significado
profundo. Mas o grupo de amigos tinha uma característica unânime:
eram todos amantes de música que gostavam de se reunir ao som de
violões e fazer um som muito bem feito, por prazer. Até porque
ninguém queria gravar o som deles no início.
Era
tanta instantaneidade, que acordes feitos de improviso se tornaram
referência do gênero estudado anos mais tarde. Muitos surgiram por
acaso mesmo, no momento das gravações.
Talvez
o sucesso de públicos inesperados se dê pela naturalidade até nos
temas das músicas que se referem ao cotidiano daqueles estudantes. A
praia é a todo momento relembrada, assim como o mar e Ipanema. O
maior clássico já diz “Olha que coisa mais linda/ Mais cheia de
graça/É ela menina
Que vem e que passa/Num doce balanço/A
caminho do mar.
E,
também, as paisagens cariocas, típicas de quem tem a praia como
caminho e ponto de encontro, são sempre citadas como no trecho “Da
janela vê-se o corcovado/ O Redentor que lindo”.
As
letras tratavam do cotidiano de forma poética como na letra
“Fotografei você na minha rolleiflex, revelou-se a sua enorme
ingratidão”. Tudo que era perceptível virava letra: as estações,
a natureza, as mulheres e os sentimentos.
Vinícius
de Moraes foi o mestre pois suas letras nos transportam para aqueles
sentimentos que algumas canções provocam dentro da gente. Lembra
dessa? “Ah, insensatez que você fez/ Coração mais sem cuidado/
Fez chorar de dor o seu amor/ Um amor tão delicado”
O
símbolo da MPB o banquinho, aquele até hoje utilizado por quem
canta na noite, foi uma saída para o desconforto dos músicos que se
apresentavam em poltronas de sofás nas boates. Nada de estilo,
apenas uma solução para o momento.
A
alegria da juventude é perceptível, na esperança e no lúdico, dos
sons e das letras, que trazem leveza, humor e positivismo, em
composições simples que todos entendem.
Como
não se encantar com o primor de Tom Jobim ao piano, a genialidade
dos compositores Vinícius de Moraes, Carlinhos Lyra, Ronaldo
Bôscoli, Chico Feitosa e tantos outros o tempo todo com seus violões
traduzindo o que viam e sentiam em belíssimas canções.
Sem
falar das intérpretes como a sempre emocionada Elis Regina, e o
charme de Astrud Gilberto cantando em inglês, assim como a
desenvoltura de Miúcha e de Nara Leão. Não se pode esquecer de
Toquinho sempre perfeito nas apresentações com seu impecável
violão.
Deve
ser por tudo isso que Silvinha Telles apostou nos garotos, gravou Tom
Jobim e tornou a Bossa Nova conhecida abrindo o caminho para outras
gravações.
A
despretensão em fazer um som junto com os amigos nos momentos de
lazer, sempre em reuniões na casa de um deles, no bar ou na praia
não faz deles diferentes em nada dos jovens de sempre. A não ser
pela cultura. Pelo interesse pela arte da Música, pois eram
estudantes de seus instrumentos, exímios artistas, prontos para
trocar conhecimento e aprender.
Com
técnica e talento esse movimento da juventude universitária tomou o
poder e fez história. Sem nem perceber... porque “Isso é Bossa
Nova/ isso é muito natural”.
Carla
Baldutti Rodrigues